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Preston Kullingher

 

Acordei lá pelas 12 a.m como de costume. Peguei o celular e não acreditei. Haviam duas videos chamadas dela. Esfreguei bem os olhos e olhei de novo, poderia ter sido um engano, esses apps costumam falhar com frequência. Mas não. Era real. Ela realmente havia me ligado,  e duas vezes seguidas. Na hora não liguei, fui escovar os dentes e colocar algo dentro do estômago vazio.

Inútil.  Aquilo ficou martelando minha cabeça durante toda a manhã, na verdade durante todo o dia. Mas o que será que ela queria comigo? Milhares de razões percorreram minha mente, algumas absurdas. Grana?  Favores sexuais?  Um reencontro talvez?  Uma volta? Não, muito improvável. Estávamos com outras pessoas agora. Estivemos juntos por pouco tempo,  meses. E já fazia três anos que cada um havia ido para o seu lado e seguido com sua vidinha medíocre. A dela um pouco mais do que a minha por conta do fator financeiro, penso eu. Não que eu fosse rico, longe disso. Tinha apenas um carro velho e um pouco de grana que me permitia comer porcarias gostosas que um dia irão entupir minhas veias. Não andava bebendo muito por causa do maldito refluxo.

À noite, não aguentei e lhe enviei uma mensagem. Ela respondeu. A conversa começou estranha. Eu perguntei se ela havia me ligado e ela respondeu que havia sido engano. Medrosa. Ou, talvez a pergunta tivesse soado para ela um tanto ríspida ou grosseira e por isso preferiu se colocar na defensiva com medo de abrir a guarda e ir para o combate de peito aberto. Continuamos com a conversa de scrip, aquela em que perguntamos sobre como tem estado de saúde pais, irmãos, avós (se já não morreram!) e se ainda trabalha no mesmo lugar, e se ainda mora na mesma casa. Óbvio que não estamos interessados em nada disso. Para não deixar a conversar morrer perguntei sobre sua prima, que eu havia conhecido no dia em que ficamos pela primeira vez, e que quase havia ficado com ela. Havia dançado com as duas e, olha que danço muito mal, e pra conseguir me fazer ir dançar é porque eu tenho que estar muito interessado na pessoa. Acabei ficando com ela mesmo, ao invés da prima. Estava afim dela desde o começo,  desde a primeira vez que a vi. Nosso namoro foi meio torto desde o início e acabou de uma forma não muito legal pra mim. Mas isso são erros do passado que as pessoas jovens  cometem e que tem que cometer mesmo. É uma liberdade poética da juventude. Viva e deixe-se viver. Carpe diem. Ainda somos jovens e podemos vir a cometer bobagens com os nossos atuais namorados, as quais um dia poderemos nos arrepender, como ela mesmo fez a alguns meses atrás quando me mandou uma mensagem crua, sincera, de várias linhas, um pedido de desculpas honesto, corajoso.

E agora essa video chamada. A conversa estava caminhando para o fim, fria e superficial. Quando eu quis ver a foto que ela exibia no app acabei por iniciar uma video chamada para ela. Atrapalhadamente consegui desligar. Segundos depois ela retornava a chamada. Quando a imagem dela deitada na cama apareceu na tela foi como um sabor antigo de comida caseira, como ir visitar a avó no campo. Ela estava bem, muito bem. Não havia mudado nada na época em que estivemos juntos. Fiz questão de dizer isso pois todas as minhas ex estavam obesas e com filhos para criar. Ela riu e gostou do elogio.  Aproveitou a deixa e me perguntou se eu havia casado. Informei que estava bem longe disso. A conversa fluía naturalmente, gostosa. As barreiras haviam sido deixadas de lado.  Perguntei, novamente, por onde andava sua prima e ela não perdeu a oportunidade de dizer que eu sempre tive uma queda por ela. Rimos. Eu não neguei. Era bonita a prima dela, mas ela era mais. Beleza e atitude em um rosto forte com leves traços indígenas. Era fácil se sentir atraído por ela. Neste momento me imaginei fazendo amor com ela de novo. Amor não,  me imaginei trepando com ela vigorosamente. Tudo o que eu não havia feito quando estivemos juntos. Só fizemos amor uma única vez e foi uma merda. Foi rápido, eu não estava em um dia muito bom e ela não estava muito afim de fazer. Inventou a velha e manjada desculpa da dor de cabeça e que queria ir para casa. Tudo mentira. Uma semana depois descobri que ela me traía com um cara mais velho, rico. Dava pra ele direto e pra mim inventava desculpas ralas. Eu não fiquei atrás, e muito antes de descobrir a traição da parte dela voltei a ficar com a minha ex. Na verdade hoje não sei quem traía quem. É confuso, confesso. Se ela pensou na época que eu iria ficar esperando a boa vontade dela em querer transar comigo, ela errou feio. Toda mulher devia saber que qualquer homem normal, homem mesmo, não esses meninos frescos metidos a sensíveis, chorões e femininos de hoje em dia, não consegue ficar uma semana sem sexo. E nós já namorávamos a mais de três meses. Estava próximo do quarto mês quando rolou e uma  semana depois descobri a traição dela.

Na época ela não chorou, não mostrou arrependimento, manteve-se firme sustentando sua posição. Não sou contra a traição,  longe de mim, defendo a ideologia que as pessoas tem que fazer o que bem entenderem pois a vida é muito curta para se impor limites sociais, éticos,  religiosos. Só se vive uma vez, portanto faça bem feito. Mas eu sou um macho alfa e naquele momento tive que me impor como tal: Xinguei-a de todos os nomes possíveis,  não a deixei falar um minuto sequer para expor seus motivos. Fodam-se os seus motivos, eles não me importavam nem um pouco. Falávamos ao telefone e ela queria me ver pessoalmente para conversar melhor e explicar o que havia acontecido,  mas tamanha era a minha raiva que ameacei soca-la se a visse na minha frente. (Jamais faria isso! Mas naquele momento foi o que consegui dizer.) Ela se assustou. Um susto meio de desconfiança como que quisesse pagar pra ver. Nessa hora ela deve ter ficado totalmente molhada. Gostava de homens assim, brutos, descontrolados em momentos de fúria e ela ainda não havia visto esse meu lado. Sou um cara pacífico,  quase um zen-budista, mas é tudo culpa dos remédios,  eles que acalmam o lobo faminto raivoso dentro de mim. Semanas depois do término ela pediu para a prima (a mesma que eu dancei e que ia ficando), me ligar. Ela mesmo não teve coragem. Eu sabia que ela estava do lado da prima ouvindo a conversa de forma que eu falei para ela ouvir mesmo. Disse a verdade, simplesmente. Eu era um namorado legal e ela havia me traído porque queria experimentar,  não estava arrependida coisa nenhuma, era apenas remorso e vergonha por ter sido descoberta sua farsa. Chamei-a de farsante de merda e vagabunda da pior espécie, algo por ai. Mas tudo isso é passado,  é história. E eu não consigo guardar rancor de ninguém,  minha raiva passa em algumas semanas. Depois nem me lembro mais o que houve. Pra mim se torna uma grande bobagem.

Dias depois da conversa via videochamada ela me ligou novamente. Veio com uma conversinha mole sobre o que eu estava fazendo e eu percebi qual era dela e fui direto ao ponto. Nos encontramos em uma praça perto da casa dela. Ela entrou no carro, me cumprimentou com o seu “ E ai rapaz?” como sempre fazia. Eu olhei bem na cara dela passei a mão direita por trás da cabeça e puxei-a dando um grande beijo de língua, a mão esquerda acariciando suas pernas. A respiração dela já estava ofegante, e a minha mão esquerda já não estava mais só nas pernas. Aproveitei que ela já estava no ponto e me dirigi para o primeiro motel próximo. Foi sensacional.  Ela tocou o céu e voltou. Estava suada, esgotada, arrasada.

Eu não gozei. Não sei bem o porquê.

Tomei uma chuveirada como sempre faço para limpar a alma e a mente. Voltei para o quarto me vesti e fiquei sentado em uma poltrona  de frente para ela. Observei-a por alguns minutos até ela perceber estar sendo observada e se cobriu com o lençol com vergonha. Minha cabeça estava longe dali. Três anos atrás no tempo. Contra a minha vontade me veio a lembrança daquele fatídico dia, da traição e em como os dias posteriores foram bem difíceis de se controlar um ego ferido. Ela falou alguma coisa comigo da cama, mas não escutei. Imagens passavam pela minha cabeça devastadoramente. Me levantei da poltrona deixei a grana do motel e do táxi e nunca mais a procurei, nem ela a mim.

 

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