02

02

Preston Kullingher

 

Ela ia embora e eu não sabia o que fazer, ou o que sentir. Era estranho. Na verdade não estávamos mais juntos, se é que alguma vez estivemos de fato.  Apenas “curtimos” por um tempo, um mês, acho. Da minha parte foi “curtição”, da dela não sei. Só sei que  quando ela quis tornar em algo mais sério pulei fora.

A notícia me pegou desprevenido e em um estalar de dedos me vi pensando nela, ligando para ela. Era como se de repente fizesse parte da minha vida, e sua ausência fosse me deixar um tremendo vazio. Quando vi a postagem pirei: havia pedido demissão do emprego. E ela que adorava tanto aquela merda de emprego….

A conheci lá, e em poucos meses estávamos saindo, curtindo baladas, praias, viajamos uma vez. Na verdade, eu que fui atrás dela quando estava em outra cidade visitando os pais. Trocávamos mensagens quando ela me desafiou, dizendo que eu não teria coragem, e duas horas depois estava eu na porta da casa dos pais dela. Foi a primeira vez que ficamos, apenas beijinhos. Na volta da viajem foi que rolou pra valer. Foi bom, não maravilhoso, nem ótimo, apenas bom. E mesmo assim eu não conseguia deixar pra lá, me afastar. Havia uma forte atração da minha parte, e uma forte solidão da dela. Era muito carente de companhia e afeto pois morava na cidade grande sozinha, menina vinda do interior, você sabe. Agora ela ia embora, pra outro país. Era uma viagem sem volta. Iria pra trabalhar, morar, com certeza arrumar um marido, construir uma nova vida diferente da que tinha, melhor. Provavelmente nunca mais a veria. Já não a via há quase 1 ano, mas sabia que ela estava ali, bem ali, alguns minutos de carro da minha casa e pronto. Agora era diferente, era pra valer. Definitivo. Definitivamente. Merda!

Falei com ela na mesma hora em que vi a postagem, marcamos de se ver mais tarde em um bar.

Éramos dois estranhos sentados juntos. As conversas não fluíam espontaneamente, eu perguntava, ela respondia, bebíamos nossas cervejas, ouvíamos a banda tocar e que banda ruim dos infernos! Mas era um desfile de beldades em roupas curtíssimas: shorts, saias, pernas grossas, bundas grandes para todos os lados, o que fazia valer a pena. Senti pelas respostas que me dava um pouco de rancor antigo guardado. Como na hora em que disse estar indo porque não havia laços fortes que a prendessem aqui, exceto a mãe e algumas amigas. Já que era sozinha a maior parte do tempo não havia diferença estar sozinha lá do que aqui. Falou isso olhando bem dentro dos meus olhos. Doeu.

Queria poder ter tido jogo de cintura e namorado com ela e com outros “esquemas” que tinha. Mas não dava, já tinha uma namorada. Amava ela, sério. E é bem difícil administrar um namoro e algumas amigas, imagine uma outra namorada oficial. Teria que ser um artista. Eu sempre me complicava na hora das ligações e das mensagens. Parece até que elas sentem quando eu estou com a “outra” pois, justamente nessa hora, é que zaping me. Tenho que deixar no vácuo ou desligar o telefone para a outra não notar, e depois me explicar para a outra do porquê não ter respondido. Tantas outras que chego a me confundir. Um certo amigo policial uma vez me explicou que o problema era apenas uma questão de hierarquia. Nós tínhamos que alocá-las em status diferentes para não ter confusão. Esposas, noivas, namoradas e “esquemas”. Nessa ordem. Um sistema de castas, um Karma. Simples assim, ou não.

Queria poder ser mais de um, ter várias vidas ou apenas que elas não ligassem para essas bobagens de fidelidade, 1→1. Eu era um elemento que me ligava a outros elementos de um conjunto universo. 1→U.

Fui deixá-la em casa depois do bar, nos beijamos dentro do carro na porta do condomínio. Pensei que ela fosse me convidar para subir, que faríamos amor, que dormiríamos juntos pela última vez antes da partida como se fôssemos namorados de anos, uma despedida para marcar o relacionamento que poderia ter existido mas que não houve.

Mas não. O orgulho dela foi maior que a vontade. Nos despedimos com beijos de língua automáticos, técnicos, sem tesão, sem formigamentos no corpo ou respirações fortes e aceleradas. Frio como a noite as 3h da manhã. No caminho as ruas escuras e vazias e o pensamento imerso em amores possíveis, outras pessoas, outros amigos, novas cidades para viver, identidade, aparências, uma nova vida. Quem sabe um dia não era eu que me mandava?

No dia seguinte ela retornou para a cidade em que nasceu, cidade de seus pais. Iria ficar com eles até o dia do embarque.

Não liguei, não mandei mensagens, não podia fazer isso com ela. Tinha que deixá-la ir. No dia da viagem fui até o aeroporto me despedir. Entre choros e soluços de parentes e amigas próximas demos um abraço de amigo, um aperto de mão e um simples tchau, não um adeus, apesar de que caberia perfeitamente, mas é uma palavra forte que as pessoas tem medo de pronunciar. E assim minha amiga foi embora respirar ares europeus. Não sei dizer exatamente o que senti estando ali presenciando aquela cena. me imaginei sendo o namorado dela, em uma realidade paralela talvez.

Adeus 02, obrigado por ter me proporcionado uma experiência boa, incrível, marcante. O que seria da vida se não fosse isso mesmo?

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¹ R.K  por ter despertado em mim o desejo de ser vários.

² Não sou um porco machista, acredite em mim. Isto é apenas uma história ficcional.

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