Eu, você e Ela

Eu, você e Ela

por

Preston Kullingher

 

A caixa de papelão era enorme, os entregadores tiveram dificuldade de atravessar os corredores estreitos e a velha escada em zigue-zague do antigo prédio. Não havia elevador. Bateram na porta, ele já esperava. Abriu animadamente, assinou a papelada da entrega na própria caixa. Agradeceu o entregador estendendo-lhe a mão e entrou. A empolgação tomava-o por inteiro como uma criança aprendendo a desbravar um brinquedo novo. Abria a caixa com o máximo de cuidado, era meticuloso, não queria estragar nada, saboreava o passo-a-passo.

Não dormira bem na noite anterior ansioso com a entrega. Havia comprado por Sedex, três longos dias e agora estava diante dela. Leu o manual de instruções estava em inglês e chinês, apenas. Arranhava um pouco de inglês, mas entendia as fotos ilustrativas e antes olhou no Youtube como montar (porque o Youtube nos ensina tudo hoje em dia!). Não era difícil encaixar as peças de silicone, havia uma pequena bomba de ar que era usada em algumas partes, três perucas de cores diferentes, amarelo, preto e lilás, três uniformes padronizados completos com sapatinhos e meias, 2 pulseiras, 1 relógio, 1 óculos, 1 kit de maquiagem, perfume, 1 bolsinha. É, estava tudo lá, como no anúncio, gostava sempre de conferir. Voltou a olhar o processo de montagem e como outras “pessoas como ele” personalizavam-a de diversas maneiras muito criativas. Separou as roupas no sofá, lado a lado, olhando para cada uma e pensando em qual escolher. Era a primeira vez em que ia se vestir, tinha de ser especial, era o seu début, seu nascimento. Vestiu-a e maquiou-a muito bem, mesmo pra quem não estava acostumado. Usou o delineador, o blush, o batom e por fim terminou. Estava linda, radiante, sentada com suas pernas cruzadas de maneira em que se via todo o contorno de suas belas coxas por baixo da minissaia de flanela vermelha com listras pretas. Uma mão apoiada no braço da cadeira a outra por sobre o joelho. O olhar penetrante, fixo em um ponto qualquer da sala, com o rosto levemente erguido; ele, de joelhos, se ergueu um pouco e inclinou seu rosto pegando suavemente em seu queixo e alisando carinhosamente sua bochecha rosada, virando-a em sua direção. Voltou a ajoelhar-se de frente para ela contemplando-a extasiado, e ela a olha-lo fixamente.

Alguns segundos assim e a porta se abre atrás dele. A namorada fechava a porta com a chave e o olhava sem entender o porquê ele estar naquela posição no meio da sala. Ela caminhou um pouco mais em sua direção e viu aquela linda jovem colegial japonesa sentada naturalmente, com as pernas cruzadas, a farda do colégio extremamente curta e sexy com uma camisa social branca entreaberta com a gravata solta e uma minissaia de flanela vermelha com preta que ficava na metade de suas coxas.

 

– Não é linda? – ele disse.

– O que é isso?

– Essa é a Maelling…

– Essa boneca? Você comprou uma boneca?

– Ela chegou hoje, veio do Japão.

 

A namorada saiu sem se importar muito, estava cansada do trabalho e tudo que queria era tomar uma ducha e relaxar. Já havia se acostumado a chegar em casa e se deparar com alguma coisa estranha dele. Um dia eram uns equipamentos de musculação bem no meio da sala, uma outra vez um cockpit acoplado a televisão e ele jogando um game de carro e agora isso. Às vezes, se irritava com ele pelo fato de viver de licença do trabalho, não gostava de trabalhar, gostava mesmo de ficar em casa de bobeira e de vez em quando dar um passeio pela cidade. Voltou do banho e enquanto passava pela sala ainda enxugando os cabelos percebeu que ele ainda estava lá e a boneca também. Incomodou-a. Aquela boneca era quase uma pessoa, tão real que era, perfeita, linda.

 

Você não vai guardar?

– O quê?

– A boneca, não vai guardar a boneca?

– Guardar? Como assim guardar? – balançou a cabeça desapontadamente.

 

Ela ainda não havia entendido.

Já na cozinha a namorada preparando o jantar olhava para ele na sala sentado, com uma cerveja na mão, assistindo futebol e a boneca de lado. Em uma dessas olhadas, percebeu ele de cabeça virada, pescoço estendido procurando ver por sobre os ombros da boneca os seios por baixo do decote.

– Ei rapaz. – Ela disse.

 

Ele tomou um susto e disfarçou.
– Te peguei! – Falou rindo dele.

– Pegou o que?

Você brechando a boneca.

– Tá doida? – falava aborrecidamente.

– Cuidado com o namorado dela, se ele te pega… – desatou a rir.

 

Não gostou nem um pouco da gozação da namorada, de cara amarrada desligou a televisão e foi na direção do banheiro. Após fazer a barba, jantou sozinho na cozinha, sentado de frente para a sala, olhando para a boneca. Já deitado, nem olhou para a namorada no outro lado da cama, estava com raiva, ela ainda tentou lhe agradar fazendo um carinho, mas ele se cobriu fingindo estar com sono. Na manhã seguinte ela acordou cedo para ir trabalhar, como fazem os seres humanos normais e, não o vendo na cama, pensou que estivesse no banheiro. Nada. Cozinha, nada. Quando chegou a sala já indo na direção da porta para sair o viu deitado no segundo quarto, que servia para guardar objetos velhos, abraçado com a boneca seminua, usando apenas uma microcalcinha, os peitos duros e maiores que os seus apontando em sua direção. Que ódio! Arremessou o livro que tinha nas mãos em sua direção o acertando em cheio. Ele acordou do susto sem entender o que estava acontecendo. A porta quase era arrancada com a força da batida.

À noite quando chegou novamente cansada de um dia infernal no trabalho não o achou em casa. Havia saído. Lembrou-se da boneca e a procurou. Nada. Onde ele a tinha guardado? Procurou em alguns compartimentos, sem sucesso. Será que ele tinha levado a boneca com ele? Estava louco? Sair com uma boneca sexual por ai. Ele estava preferindo sair com uma maldita boneca do que com ela?

Foi até o segundo quarto e achou-a lá: deitada, nua, com as pernas bem abertas. Foi se aproximando daquela cena bizarra e um misto de nojo e ódio foi se apoderando dela, reparou na buceta da boneca: era enorme. Percebeu um lubrificante aberto perto dos cabelos e entendeu o que havia acontecido. Chorou. Não de tristeza, mas de ódio. Sabia que não estava na sua melhor forma, havia engordado um pouco, mas sabia que ainda era muito atraente o que não justificaria ser trocada por uma boneca, um ser inanimado, um objeto repugnante.

SUA VAGABUNDA – gritou – e pulou em cima dela lhe esbofeteando, arrancando sua peruca, desmontando seus braços de silicone. Por um momento, durante a disputa desleal, viu uma faca velha em cima de uma cômoda, Pegou a faca e seu rosto era algo de filme de terror. Nesse momento ele abre a porta da sala e vê semiaberta a porta do quartinho. Corre para lá e vê o momento exato em que ela crava a faca com toda sua fúria nos seios inflados da boneca.

 

– MAELLING, NÃÃÃOOO! – gritou – O QUE VOCÊ FEZ SUA LOUCA?

– Eu sou a louca?

Os cabelos assanhados, a roupa amassada da briga, a respiração forte segurando a faca na mão…

– Você andou trepando com ela! Confessa!

Maelling…

 

Ele não processava o que ela falava, estava em choque, desolado. Apenas olhava para Maelling deformada por sobre a cama. Os braços arrancados, os peitos murchos, o abdôme aberto ao meio.

– Você trepou com ela, você trepou, confessa seu porco! Você preferiu ela do que a mim!

 

Ele estava em outra dimensão e como não respondia ao que ela falava isso a deixou ainda mais furiosa então ela tentou enfiar a faca nele, porém ele foi mais rápido e com um movimento segurou sua mão, torceu-lhe o pulso, tirou a faca e agarrando-a jogou-a na cama. Ele segurava a faca na mão direita e ela se debatia por baixo dele tentando sair. Ele apontava a faca em sua direção ameaçadoramente.

– PÁRA! PÁRA! Quietinha, Quietinha, Senão eu…

 

Ela tentava morde-lo mas não o alcançava. Ambos respiravam forte devido ao esforço e se encaravam com ódio e foi então que ele a beijou com força, ela o mordeu. Outro beijo e outra mordida. Então ele desceu a mão esquerda e começou a tirar sua calça, ela ainda lutava mexendo as pernas, tentando chutá-lo. Chamava-o de porco sujo nojento mas ele não ligava. Jogou a faca fora. Ela lhe deu um tapa forte  e o beijou com fúria. Com um puxão, ele arrancou a calcinha que estava completamente molhada. Um sexo selvagem, muito suor, muita fúria e altas doses de fetichismos. Um quase estupro consentido, se é que existe isso.

E Maelling, ou o que sobrou dela presenciava a tudo embaixo deles sem entender a excentricidade depravada da mente humana.

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