O Gordo e o Desequilíbrio

O Gordo e o Desequilíbrio

Preston Kullingher

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Certa vez eu estava em um lanchonete almoçando um bom hambúrguer, desses que entopem suas veias de gordura repleto de tudo que não presta e passa longe de ser saudável, quando uma dupla de engomadinhos feios, com cara de nerds universitários começou uma conversa que mais parecia uma tese de doutorado.

–  A questão da gordura como você sabe tem haver com os hábitos alimentares das pessoas e… [blá, blá]

–  Compreendo e também acho que….[mais blá, blá]

– Perfeitamente. Se as pessoas fizessem atividades físicas…

E eu comendo e ouvindo toda aquela baboseira. Em um certo momento cheguei até dar razão a eles pois o raciocínio de ambos era perfeitamente lógico, racional. Porém, o sabor daquele hambúrguer suculento que pingava óleo do bacon misturado com queijo cheddar e aquela carne com sabor de churrasco me fazia acreditar, irracionalmente,  que nada daquilo valeria a pena. Se um dia vamos todos morrer, que seja de alguma coisa: coração, pulmão, cirose, overdose. Eu já estava escolhendo o meu modo: bebia bastante e comia apenas porcarias gostosas.

As concentrações de gordura trans presente nesse hambúrguer são…

– E de sódio então, nem se fala.

Em um certo momento em que não consegui deixar de ouvir novamente um deles soltou:

O grande problema é o desequilíbrio. O gordo é uma pessoa desequilibrada.

Eu ouvi uma batida na mesa e um cara grandão passou por mim quase me levando junto em sua trajetória de tão grande que era. Parou em frente a mesas dos dois.

– Quem é o desequilibrado aqui, ham?

Os dois ficaram sem ação. Pelo visto a conversa deles estava sendo ouvida por mais pessoas na lanchonete.

– Eu, eu, eu não e-stava me r-eferindo a você e…

– Qual é? Eu sou gordo, não sou? Então você estava se referindo a mim sim.

– Olha amigo eu não quero confusão e…

– Ahn, gosta de ser magrinho saudável não é? E agora foge de um gordo desequilibrado como você mesmo falou.

– O desequilíbrio que eu me referi foi com relação a comer mais do que fazer exercícios físicos. Comer em demasia. Comer demais entende? Não houve um equilíbrio entre comer e se exercitar.

– Ah, então acha que eu não faço exercícios? Que eu só fiz comer a minha vida inteira como um maldito glutão?

– Eu não estava f-alando de v-ocê, eu, eu f-alei em um s-entido geral.

– Olha aqui cara eu não sou um maldito de um glutão desequilibrado entendeu.

Nesse momento o gordão deu um tapa na mesa levando as bandejas de comida, esparramando tudo em cima do outro nerd que estava calado, imóvel, petrificado de tanto medo. O gordão continuou.

– Eu não sou um desequilibrado. Eu não sou um desequilibrado.

Ele parecia um bebezão enorme. Tinha cara de panaca. Pelo rosto e pelas roupas que usava até dava para dizer que talvez fosse doido de pedra mesmo, ou que tivesse apenas um retardo mental, tipo desses em que o cara tem vinte anos com mente de seis. Seu rosto estava muito vermelho, como um tomate, parecia que ia explodir.  Nesse momento o gordão deu-lhe uma tapa com aquelas mãos de elefante que os óculos do nerd voaram longe. A cara dele voou longe, quase batendo no chão. O outro nerd, o que havia ficado imóvel até então, de repente saltou do banco e ganhou a rua com passadas largas. Os funcionários da loja, duas meninas magrelas e um jovem com óculos fundo de garrafa, trataram logo de se esconder atrás do balcão. O pobre nerd estava sozinho. O combate do homem contra a natureza, o maior contra o menor, o esquilo contra o urso.

Foi aí então que eu me chateei com toda aquela situação. Porra! um homem não pode mais comer seu hambúrguer em paz. E daí que o nerd de merda falou mal do gordão? Estamos na América droga, qualquer um fala o que quiser do outro. A menos que este outro tenha uma arma. Me levantei e fui na direção dos dois.

– Ei gordão, deixa o cara em paz. Ele já teve o que merecia.

– Não se meta nisso seu cretino. Isso não é assunto seu.

Olha aqui bebê elefante você não vai mais bater nele e nem em ninguém entendeu. Acabou o seu showzinho. Volta lá pro seu “Bigburguer”, com sua “Bigbatata”, com seu “Bigrefrigerante”, porque tudo seu é big mesmo.

Falei para provocar mesmo. Sempre gostei de uma boa briga, nunca fugi de uma, mas brigar com aquela cara, meu Deus! Aquele cara precisava era de uma cirurgia bariátrica o mais rápido possível.

– Seu miserável, agora você vai morrer!

Nem bem ele deu dois passos, eu empurrei ele com toda força. O corpo dele se inclinou para trás, os braços gordos tentaram segurar em alguma coisa ou então ele pensou ser um pássaro, estava batendo asas, os pés estavam juntos de forma que foi inevitável a queda. Toda aquela banha tocando o chão, a barriga mole se movimentou um bocado, a cabeça pequenininha não dava para ser vista do ângulo em que eu estava. Deveria ter sido um vídeo incrível visto da Supercâmera.

O nerd se levantou do chão massageando a bochecha direita, mas na verdade ele tinha que massagear todo o lado direito do rosto em que via-se perfeitamente os cinco dedos do gordo.

– Obrigado amigo.

Cai fora seu fedorento. Não fiz isso por você. Se manda daqui antes que eu te arrebente a cara.

Ele saiu em disparada e pulou por sobre o gordo no chão que tentava a todo custo se levantar mas devido ao peso não conseguia. Ele movia braços e pernas em vão. Ele não tinha forças para apoiar os braços no chão e se sentar. Parecia uma tartaruga gigante de Galápagos de cabeça para baixo. Que triste. Me ajoelhei perto dele.

Que patético hein gordão? Não consegue se levantar.

Eu vou matar você cara, eu juro por Deus.

Vai matar nada. Olhe pra você, parece uma baleia encalhada. Você me enoja, cara, com toda essa gordura por baixo da pele, todo esse fedor de gordura acumulada de anos. Você é o que há de pior nesse país. Por causa de pessoas como você que os preços dos alimentos sobem, o preço da cerveja sobe, os carros ficam mais espaçosos e mais caros, há fome no mundo, guerras, tudo por conta de glutões como você.

Quando eu me levantar daqui eu vou acabar com você seu cretino.

– Ei, sabe que o nerd feio tinha razão. Vocês obesos não tem equilíbrio nenhum. Ha, Ha, Ha.

Saí de lá do mesmo jeito que entrei, nem melhor nem pior. Aquilo não me fez mais feliz nem mais triste, nem mais confiante. Talvez mais duvidoso com certas questões alimentares, físicas. Eu estava acima do peso, a barriga notava-se por baixo da blusa frouxa.  Talvez fosse o momento de praticar mais exercícios como sinuca, boliche, carteado. Talvez eu diminua mais a ingestão de carboidratos e gorduras, mas a cerveja nunca. Essa nunca vou diminuir ou parar.

 

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