Retorno

Retorno

Preston Kullingher

 

Casados a três anos e antes mesmo da famosa ‘crise dos sete anos’ o relacionamento já dava sinais de desgaste, em boa parte por culpa dela. Sabia disso. Havia se casado muito nova, de forma impetuosa, dramática e precipitada, mas só veio perceber depois do primeiro filho, nascido um ano e meio depois. Ela com dezenove anos. Ele com vinte e nove anos. Era daquelas que não conseguia ficar em casa a noite, sempre havia uma festa, uma balada para ir com os amigos, e eram muitos amigos que tinha. Depois do filho e das responsabilidades todos sumiram, ela já não podia acompanhar a turma nas festas.

Cansou da vida que levava, sempre que se olhava no espelho via uma velha e de fato depois da gravidez e da lactação já aparentava ter mais do que dezenove: os peitos estavam murchos, bunda inexistente, algumas olheiras visíveis, o cabelo descolorido, o corpo sanfonado. Chorava.

Conseguiu um emprego com uma amiga das antigas, setor de call center. Fez novos amigos, esticava no barzinho depois do trabalho, percebia alguns olhares famintos masculinos e retribuía-os. Sentia-se rejuvenescida a cada troca de olhares, dezessete de novo. O sexo conjugal estava escasso e tão sem graça, apesar do esforço do outro, não era como antes, não havia gozo apenas fingimento. As saídas com os novos amigos estava causando problemas em casa, sempre chegava de manhã um pouco bêbada e com as sandálias na mão e era aquela cena: Ele esculhambando ela, ela esculhambando ele.

Aí surgiu o Paiva, que não tinha nada com o fato dela ser casada nem tampouco com as brigas que estava tendo. Viu nela uma presa fácil, compreendeu o layout que lhe apresentava e foi se chegando, conversinhas, trocas de telefone, as saídas com o resto do pessoal no barzinho. E o Paiva teve o que quis. E ela se apaixonou perdidamente, bastou uma vez só. O Paiva fazia gostoso. Era craque nisso e era só isso que sabia fazer direito. Ela estava nas nuvens, fazia tempo que não sentia um prazer tão grande. Só pensava nisso o dia inteiro. O Paiva usou e abusou e como todo malandro foi se saindo, escapando pelas frestas. Um mês foi o tempo que durou. Ela já confidenciava para as amigas que iria se separar, que não aguentava mais, que o fulano era isso, que o fulano era aquilo, que agora tinha arranjado um homem de verdade (Paiva, mas não dizia quem, como se as amigas não soubessem!). Iria tirar tudo o que pudesse do marido: pensão, casa, carro. Não estava nem aí para ele. Culpava-o pelo tempo perdido.

O Paiva já estava de conversinha com uma loirinha novata, novinha, magrinha igual a ela, que havia chegado a algumas semanas. As amigas lhe confessaram que ele era um safado e que todas sabiam disso por experiência própria. Desiludiu-se com o Paiva mas não com a nova vida que vislumbrava: mãe solteira, independente, com casa própria e de carro! Sabia que não havia de faltar pretendentes. Havia provado do doce da vida, agora queria se lambuzar. Não queria mais se apegar a ninguém novamente.

O destino sempre malicioso fez com que um dia pela manhã, na hora do café, após as conversas triviais à mesa, o marido caísse duro no meio da sala.

No hospital diagnosticaram AVC, uma veia que irriga o cérebro estava quase fechada. Se houve remorsos ou arrependimentos da parte dela não sei, talvez não tivesse tempo para pensar nisso, era só mimos com o marido. Já não o queria mal como antes, não saiu de lado da cama durante todo o tempo em que ele passou internado; o filho havia deixado com sua mãe. Era só atenção para o maridinho: dava comidinha na boca, controlava a medicação junto com as enfermeiras, segurava na mão dele (Chaveirinho, era assim que o chamava carinhosamente?!) mesmo em um leito de hospital e vendo o marido naquele estado sentiu uma excitação profunda por ele. Chorava internamente por pensar que podia tê-lo perdido: ”Um marido tão bom, Senhor. Um pai exemplar”. Só elogios.

O marido retornou para casa e para sua nova mulher. Não havia mais brigas domiciliares, discussões, chegadas sorrateiras de madrugada, era paparicado  noite e dia, e estava gostando. Demorou além do previsto para voltar a velha forma de antes. Não se pode dizer se por conta das sequelas do AVC ou por sequelas de uma vida nova repleta de mimos. Tudo lhe era dado em mãos. Já não se levantava do sofá para mais nada. A cerveja sempre gelada, o futebol na tv. E reclamava quando as coisas não estavam do seu agrado. As confusões tardaram um pouco mas retornaram com toda a força de antes, o barzinho com as amigas após o trabalho, as trocas de olhares, assim como o desejo de separação; o Paiva! Sim, o Paiva que passava por um período de seca em suas terras sempre irrigadas, voltou a puxar papo, conversinha mole no ouvido.

E isso me fez lembrar que o eterno retorno em Nietzsche me pareceu uma teoria filosófica adequada.

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