O Filé de Panga

O FILÉ DE PANGA

por

Preston Kullingher

 

Ela queria comer frutos do mar. Eu queria ficar em casa. Entramos no carro e partimos rumo a parte rica da cidade. Eu, como em um cortejo, ela no trem da alegria.

O restaurante francês escolhido por ela por indicação de uma amiga não era o mais caro, era o segundo mais caro.

Ah, aceita cartão! Alegrei-me.

O menu parecia meu álbum de casamento, dezenas de pratos, todos com nomes estranhos. Isto aqui está escrito em francês ou italiano? Para mim era tudo peixe ou camarão, que pra mim também é peixe. Camarão é peixe? O que é o camarão?

Ela olhava para o menu interessada. Duvidei que estivesse entendendo alguma coisa. Virava as páginas, passava o dedo pelas páginas, ia para o fim, voltava para o início. Por fim disse:

– Amor! Vou comer o que você for comer.

Rá, eu sabia. Ela não teria coragem. A barreira do idioma falou mais alto. Venci. Vou poder escolher o prato, o futuro do meu salário estava em minhas mãos. Uma escolha errada e o próximo mês seria só pra pagar esse jantar. Precisava me concentrar, meditar nos nomes, na língua francesa, os mais estrambólicos devem ser os mais caros, ou será os menores assim como os perfumes? Já estava impaciente. O garçom indiferente ao lado da mesa . Ela olhava para mim, ele olhava para mim, eu olhava para o menu. A aflição crescia. Estava quase suando, tinha que me decidir, uma última olhada rápida. Uni-duni-tê, fechei os olhos e apontei, a voz embargada quase inaudível

– Vou querer este peixe aqui.Esperei a reação do garçom, nada.

– Qual o vinho, senhor? Perguntou.

 

Vinho? Vinho! Vinho, ah sim, o vinho. Veja só o costume do refrigerante, me esqueci que nesses lugares se bebe vinho.

 

– Um vinho do porto, por favor!

– Qual o vinho e a safra?

– Alguma sugestão da casa? – Aprendi essa pela televisão num programa de etiqueta.

 

Vieram as entradas, o prato principal (tão pouquinho!), o segundo prato e, olhem só, um terceiro prato, era um banquete, me sentia um rei. Nesta altura meu humor havia melhorado bastante, talvez por conta das taças de vinho que iam e vinham, tanto é que estava a pedir sobremesa, sem me preocupar com a conta que estava altíssima para os meus padrões de funcionário público. Satisfeito com a orgia prazerosa que um belo banquete proporciona, havia chegado a hora de pedir o saldo devedor da comilança.

 

Amor o que é que você tem? Tá se sentindo bem? Comeu demais não foi? Você até agora a pouco estava tão animado no restaurante, foi só entrar no carro… Que bicho te mordeu?

 

Um bicho de três dígitos havia me mordido.

No apartamento, ainda de cara amarrada, como de costume deitei em minha rede e peguei a revista para ler; a mulher a se arrumar para dormir(porque mulher se arruma pra ir dormir veja só!). Folheando a revista cheguei ao final onde havia uma receita de peixe brasileiro, baratinho, que se encontra em todo supermercado, com um molho bem fácil de se fazer com creme de leite. Os ingredientes todos não passavam de vinte reais. A princípio estranhei, aquele prato me parecia familiar, o desenho sei lá….

Um amigo do apartamento vizinho ao nosso me disse no outro dia que ouvira um grito agudo, como de dor, acreditava vir de meu apartamento ao qual respondi vagamente de que não me lembrava de ter ouvido grito nenhum.

Apaguei.

Quando vi na página da receita o nome do prato em francês em letras miúdas abaixo de “FILÈ DE PANGA AO MOLHO BRANCO” nada mais lembro após isto.

 

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