Consulta

(A vingança dos pacientes)

por

Preston Kullingher

 

Procurei o médico logo pela manhã, não queria perder tempo. O consultório estava vazio de modo que fui o primeiro cliente. Entrei e o vi sentado, totalmente relaxado, mexendo no celular, rindo.

Doutor eu quero mudar a minha cara!

Ele fez uma cara feia, estranhou a pergunta talvez. Não teve reação. Uns segundos depois de um longo silêncio, ele me olhando pensativo e eu super agitado esfregando as mãos suadas na calça:

– Você quer dizer o rosto?

– Sim, o rosto, a cara… – Com a mão direita fiz um movimento circular como se o limpasse com uma toalha.

– O que você quer mudar especificamente?

– Tudo! Eu quero mudar tudo, cansei de mim mesmo, sabe? Todos os dias eu me olho no espelho e vejo o mesmo bode velho cansado.

 

Eu estava mesmo um farrapo. Nunca fora bonito pra falar a verdade. Tive espinhas enormes que tomaram quase todo o meu rosto e que por fim deixaram cicatrizes me fazendo parecer um maracujá amassado por uma pisada de um gordo. O nariz era grande, imponente, que na adolescência me rendeu o apelido carinhoso dado pelos colegas de tubarão. Orelhas grandes como herança de família. Eram maiores quando criança mas o rosto engordou, e tudo mais, e hoje parecem normais (entenda, não chamam tanto atenção, há coisas piores!). A minha boca tem o tamanho normal, o problema são os lábios, se é que posso chamar isso de lábios, estão mais para gengivas de cavalo;o inferior pesou tanto que gerou uma curvatura, uma cavinha, quase cobrindo o queixo, que por sinal é pequeno e duro, como de boxeador. Olhos pretos, circulares, sempre bem abertos, só o esquerdo que é um pouco baixo, como se estivesse piscando para alguém. Quando uma pessoa tem um defeito na cara – um olho baixo, vesgo ou estrábico; desvio de septo no nariz, uma verruga na testa, um sinal na ponta da boca – gera desconforto conversar com alguém frente a frente porque o outro tem uma tendência, uma necessidade, quase um vício de olhar fixamente para a aberração que temos e nós olhamos para os olhos deles e vemos que eles só olham para o defeito e tentamos então disfarçar virando o rosto, ajeitando o cabelo e eles tentam em vão olhar para os lados, para a nossa roupa mas, epa, já estão olhando de novo. É algo doentio pra nós e pra eles.

– Mudar toda a face é uma cirurgia e tanto…

– Eu aguento.

 

complicada…

– O senhor é bom! Tenho certeza que dará conta.

 

– …e tem um alto custo.

Percebi que ele queria me desencorajar a fazer. Talvez não quisesse, não tivesse ido com a minha cara. Talvez fosse dar muito trabalho e ele fosse desses preguiçosos que gostam de serviços pequenos. De grão em grão a galinha enche o papo,  no caso o bolso. Ou, talvez, ele achasse que eu era louco. Parecia, mas não era. Realmente eu estava mal vestido: jeans sujo, um pouco velho, camisa preta com a estampa desbotada do pateta e aquela sua cara comprida de abestado, um allstar azul, barba rala, unhas grandes e um pouco sujas e sem falar que eu não parava de limpar as mãos suadas na calça freneticamente.

– Acha que não posso pagar? – Resolvi encrencar com ele.

– Não, não é isso que quero dizer, eu… – Vacilou. Percebi o medo em sua voz, ficou sem jeito, gaguejou. Resolvi entrar com tudo.

– Acha que não posso pagar hein? Que sou um maldito pobre de merda, assalariado, working class que limpa os seus dejetos na rua diariamente. Seu porco rico. Esnobe de uma figa.

– O que é isso? Não, absolutamente…

– Não me venha com não seu miserável. – Gritei – Eu odeio você.

 

Ele fez menção de apertar o botão e chamar a secretária.

– Ahn, Ahn, nem pense nisso – Falei me levantando da cadeira e indo em sua direção, contornando a mesa – Ou acabo com você aqui mesmo.

 

Ele ficou teso na cadeira, duro como uma árvore morta. Os olhos esbugalhados olhando pra mim. Apavorado. A postura relaxada de antes, dono da situação, não existia mais. As mãos imóveis apoiadas nos braços da cadeira.

Peguei a secretária eletrônica. Com um puxão arranquei o fio. Com duas passadas largas pra trás, sempre de olho nele, alcancei a porta e a fechei com a chave. Pronto agora eram só nós dois. Havia um brilho de assassino em meu olhar e, juntamente com a fisionomia e as roupas, era um louco perfeito. Me aproximei dele novamente, devagar.

– O que vai fazer comigo? Por favor eu tenho mulher e filhas…

– Tem nada. Onde estão os portas retratos?

Não havia nenhum. Tinha reparado. Havia pego ele na mentira.

– Gosta de mentir doutor?

– Não, eu…

– Não minta pra mim! – Berrei batendo com a mão fechada na mesa bem próximo a ele.

A secretária ouviu o barulho e veio até a porta verificar. Ouvi-a girar a maçaneta da porta.

– Doutor? Está tudo bem aí?

 

Fiz uma cara pra ele. Ele entendeu o recado.

– Tudo bem Christina. Tudo sob controle.

 

Balancei a cabeça afirmativamente. Bom garoto.

– Então doutor acha que não posso pagar pela sua cirurgia de merda?

– Não foi isso que quis dizer. Eu apenas disse que era caro.

– Ahh… acha que sou pobre?

– Não, não… – As palavras mal saíam de sua boca.

– Acha que sou louco? Hã?

– Eu.. eu…não…sei…não.

– Sabe sim.

 – Você é?

– Sou? Como ousa…

– Me desculpe, me desculpe, Oh meu Deus!

– Acredita em Deus doutor? É católico?

– Sim…sim…adventista…

– Ahh… os sábados são dele, Ham? Se acha melhor que os católicos por seguir a bíblia ao pé da letra.

– Não, eu apenas…

– Não, não, sim, sim, apenas…sempre essa ladainha. Vou te dizer o que você é. Você é um rico, metido, mentiroso. Se acha melhor que os outros nesse seu terno de grife e no seu carro importado, sua esposa loira, com um rabo branco enorme e sua casa nos arredores da cidade. É bom demais para morar nessa  cidade fedorenta.

 

 

Dei-lhe uma bofetada com a parte de fora da mão direita, minha mão forte. O rosto dele foi todo para o lado esquerdo e ele imediatamente levou a mão como se ardesse. Estava com a bochecha direita vermelha e como era branco dava a impressão que havia passado blush. A boca já era bem vermelha por natureza, como se estivesse de batom. Um maldito riquinho bem alimentado, sem colesterol ou anemia.

Não iria socá-lo, apesar de ser tentador desferir golpes contra a burguesia, não era um criminoso. Era apenas mais um trabalhador desempregado, desafortunado, afogado em bebidas e pílulas, depressivo e com baixa autoestima. Mentalmente instável. Não dava uma trepadinha a vários meses e você não pode imaginar o mal que faz ficar tanto tempo com o veneno dentro do corpo. Seca, enrijece, entra na corrente sanguínea indo direto para o cérebro. Porra cerebral.

Por instinto meti a mão no cinto e comecei a afrouxar as calças. Caminhava na direção dele com a minha cara de lunático. Ele olhava pra mim e para as calças que iam descendo atemorizado.

– O que vai fazer?

– Calado

– O que vai fazer comigo? – Berrou como uma criança que prevê a surra que virá.

– Vai. Abre logo essa boca.

-Não, por favor…

– Vai porra…

 

 

Ele tentava se levantar da cadeira em vão. Estava atordoado demais para esboçar uma reação. Me aproximei dele já com o caralho do lado de fora, balançando como um pêndulo.

– Cai de boca. Ah, e nem ouse morder… senão você já era.

 

– Não por favor… – tentava chorar mas não conseguia.

Eu batia com o pau nos dois lados do rosto dele. Percorria como um pintor da testa até o queixo. Indo e voltando. Depois retornava a bater nas bochechas. Se fosse uma paleta de tintas teria saído um belo quadro impressionista.

Ele não aguentou a pressão e caiu de boca. Chupava com nojo, como se fosse vomitar a qualquer momento. Por vezes se engasgava (quando eu puxava o rosto dele de encontro a minha cintura fazendo-o abocanhar tudo, até o talo). Continuei puxando-o pelos cabelos – tac, tac, tac, fazia o som da testa dele se chocando contra minha barriga. Estava gostoso, chupava como as bonecas da Rodeo Drive.

Jorrei toda a porra dentro da boca dele. Ele ainda tentou tirar mas não deixei. Segurei-o com força. Queria que ele engolisse. A desmoralização total e completa. A burguesia enfim engolindo os dejetos do proletariado. Me afastei. Ele caiu ao chão de quatro. Cuspia, chorava, tentava vomitar. O colarinho aberto, a gravata ensopada. Ele se arrastando pelo chão.

Minha vitória. Não estava nem mais nem menos feliz, apenas vingado. Havia me vingado de toda sociedade hipócrita, do presidente, dos senadores republicanos (quem nunca quis fazer isso com um maldito senador republicano?), do seguro social, dos donos de bares, dos hospitais caros e dos filhinhos de papai brancos que se tornavam médicos e transavam entre si e com as enfermeiras, E.R., Greys Anatomy, Private Practice e todas essas merdas.

Saí. Cumprimentei a linda secretária com um sorriso e uma piscadela. O rosto continuava lá, manchado, caído, torto, feio. Mas era um novo homem.

 

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