Californiano Eunuco

Californiano Eunuco

Preston Kullingher

 

Cansei de trepar contigo – disse.

Bateu a porta do trailer e saiu sem rumo, deixando-a chorando sentada na beira da cama. Procurou cigarros nos bolsos vazios não achando nenhum e isso o deixou mais impaciente e nervoso. Não havia lugar aonde ir. Xingou algumas vezes o vento e as árvores ao redor em um completo acesso de cólera. Quis retornar para o trailer, mas ela ainda estava lá e ele não queria vê-la chorando, aquilo lhe dava uma sensação estranha.

Após um certo período ela cansou de chorar, limpou as lágrimas na colcha meio encardida da pequena cama, tomou uma dose de um resto de tequila em um copo sujo, arrumou os cabelos, respirou profundamente e saiu. Passou por ele no lado de fora sem olhar; Sentado na grama, resignado, como um menino de castigo, vendo-a passar gritou:

 

–  Vai, Vai, sai fora, me deixa em paz sua puta de merda.

Quero foder carne nova.

 

Já dentro de seu carro ela chorou mais, desejou a morte para aquele escroto.

Algo fazia com que agisse como um ser humano desprezível assim que começava a construir sentimentos bons por alguém ou alguma coisa, de imediato queria destruir. Por isso morava em um trailer velho e sujo próximo a uma antiga fábrica de telhas e um matagal; sem nada dentro, apenas alguns maços de cigarro espalhados pelo chão, uma garrafa de bebida dentro da geladeira. Roupas tinha poucas. Como uma jovem de West Hollywood, caucasiana e loira, criada no mais alto luxo havia se envolvido com um tipo como ele? Ele era feio, magro e com barba por fazer, tinha tatuagens nos braços, fedia a cigarro mexicano barato e tequila. Ganhava alguns trocados lavando carros em um lava jato, gastava tudo com bebidas, cigarros e putas.

Ela voltou ao cair da noite mas ele não estava, tinha ido ao bar jogar bilhar. O esperou dentro do trailer onde um odor de sexo se misturava com cigarros e cinzas. Deitou na cama com seu vestido transparente de seda embebedando-se com o cheiro do seu homem. A excitação fora tomando conta então começou uma masturbação rápida e forte, suava, gemia alto, não havia vizinhança para escutá-la; movimentos acelerados, frenéticos, estava literalmente fodendo a si própria. Então parou, exausta. A adrenalina abaixando, os pensamentos retornando aos poucos, olhou-se no espelho, era quase poético, uma poesia Buckowiskyana.

Ele chegou cambaleante e bêbado, quase não se aguentava em pé. Abriu a porta com dificuldade, entrou e caiu na cama. Ela o olhava na surdina, veio devagarinho, subiu em cima, abriu as pernas, roçou um pouco, iniciou uma cavalgada; ele resmungava palavras sem sentido, de pau mole, ela se esforçando para que houvesse uma ereção do outro lado mas nada, no calor da emoção daquela tentativa de prazer constrangedora, ele diz:

Denise…

Uma lágrima escorreu. Não era seu nome.

Levantou-se e foi a cozinha, pegou uma faca de pão, voltou a mesma posição em que estava galopando há poucos segundos:

–  Se não é todo meu, também não vai ser de mais ninguém.

Com um movimento rápido e sem vacilar cortou o pênis. Um uivo alto de lobo rasgou a noite, o sangue se espalhava na cama e ela com o pau na mão saiu do trailer e o jogou longe no matagal.

Pronto estava feito, havia decepado o instrumento que tantas vezes lhe dera prazer. O sangue jorrava e ele gemia, não tinha forças para se levantar, estava bêbado demais. Sangraria até morrer e ela sabia disso e apenas o olhava, sem ação, sem sentimento, segurando a faca ensanguentada observando aquele animal imundo se debatendo como uma galinha degolada.

–  O que você fez, sua puta?

Qual o meu nome?

–  Ahh… Deus… –  gemia alto, soluçava de dor.

–  Diz o meu nome seu porco nojento.

–  Aaahh… me ajuda… me ajuda, eu tô morrendo.

–  Quem é Denise? falou aos gritos – A impassividade de antes

se tornara um sentimento de puro ódio.

Ele se debatia tendo convulsões em cima da cama encharcada de sangue, a mão no local onde antes havia o símbolo da sua masculinidade, o olhar ficando petrificado, resultado do corpo entrando em choque.

Ela voltou a si. Olhou-se no espelho que havia diante da cama, era lindo se não fosse trágico, havia se tornado uma assassina. Soltou a faca como se levasse um choque, andou de um lado para outro no trailer com as mãos na cabeça, deu um grito agudo, desesperado:

–  Merda o que foi que eu fiz?

Ele já não se mexia mais, estava deitado meio de lado com ambas as mãos no local onde antes havia seu pau.

Apenas 18 anos de idade, rica, bonita e agora assassina. Iria ser presa com certeza, talvez fosse morta na cadeira elétrica segundo as leis da califórnia; ou injeção letal, ou talvez pegasse prisão perpétua o que seria pior: passar a vida inteira presa, sem poder fazer compras, ir pro salão fazer as unhas, pintar o cabelo, usar maquiagem, que horror. Foi em direção a sala, pegou o celular de dentro da bolsa.

Alguns minutos depois um rolls royce preto parava ao lado do trailer, desceram um segurança do tamanho de um armário com cara de Terry Crews e um senhor mafioso, de terno de alta costura, aquele tipo de empresário que é dono de metade de Los Angeles e explora trabalho infantil em alguma parte da Ásia sem a menor crise de consciência. O velho fazia cara de nojo o tempo todo, entrou no trailer e viu sua filha mais nova sentada em um banquinho, paralisada, olhando pra frente, robótica. Deu uma olhada no interior do trailer, caminhou na direção do quarto, viu o presunto em cima da cama, tomou cuidado para não sujar os sapatos de couro legítimo de crocodilo; voltou-se para sua filha, deu uma boa olhada nela, andou de um lado para outro pensativo. O Terry Crews esperava do lado de fora do trailer com a arma na mão. O velho mafioso então tirou os óculos, guardou-os no bolso do terno com a maior calma, deu um suspiro de decepção, e com a maior classe deu-lhe uma bofetada grandiosa, de mão aberta, acertando em cheio a bochecha esquerda. Pegou-a pelos ombros e a chacoalhou fortemente.

–  Olha aqui sua putinha de merda foi pra isso que eu te criei?  Ham? Pra ficar andando em esgotos com  pé rapados, viciados em crack? Ham? – Mais uma bofetada – Cai fora da minha frente.

Ela saiu chorando e entrou correndo no carro. O velho mafioso saiu do trailer limpando as mãos e o terno. Colocou os óculos novamente, parou próximo ao carro, fumou um charuto cubano tranquilamente enquanto o Terry entrava no trailer e terminava o serviço. Umas luvas pretas, o tubo de gás do trailer e um fio desencapado foram suficientes para mandar tudo pelos ares e não sobrar nada pra esclarecer a história do californiano eunuco encontrado carbonizado no trailer.

 

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